domingo, 12 de fevereiro de 2012

Estrela (III)

(...) Quando dou por mim estou literalmente a ser sacudido e enquanto isso uma voz doce refila comigo e diz: "Papá, estás a ouvir-me?".
- "Não, desculpa. Perdi-me nuns pensamentos do passado." - respondi.
- "Estavas a pensar na mamã, não era?"
- "Sim, foi isso." - fiz uma pausa, enchi os pulmões com o ar fresco que se fazia sentir, e continuei - "Queres voltar para casa? Já está a ficar tarde."
Com um aceno de cabeça, ela respondeu afirmativamente, e com isto regressámos a casa.
A dada altura no caminho de regresso, enquanto estava parado num sinal vermelho, olho pelo espelho retrovisor e reparei que a minha pequena princesa tinha adormecido. Acontecimento perfeitamente normal, afinal tinha gasto bastante energia durante o dia, com todas as corridas, todas aquelas brincadeiras que adorava.
Quando chegámos a casa, ela ainda dormia por isso, decidi que não a iria acordar. Peguei-a ao colo e fui deitá-la na sua cama para que ela pudesse dormir mais enquanto eu preparava o jantar.
Decidi fazer um prato que ela gostava bastante, aliás acho que todas as crianças gostam de arroz com uns "bifinhos" e cogumelos, até eu me deliciei com aquele jantar. Estava esfomeado.
No fim de jantar, ela perguntou-me se podia ir deitar-se comigo. Estranhei o pedido mas cedi e disse "Sim Beatriz, podes vir deitar-te com o papá.".
E assim foi, fomos os dois para onde melhor se combatia o frio das gélidas noites de Inverno, o quente dos cobertores. Minutos depois de nos termos deitado ela vira-se para mim e diz "Fala-me da mamã.".
- "O que queres saber?" - perguntei.
- "Tudo" - respondeu de imediato
E assim foi, durante longos minutos dei-lhe a conhecer os vários aspectos que faziam da mãe dela, a pessoa que me deslumbrou desde o primeiro instante que a vi, e que me encantava cada vez mais à medida que o tempo corria.
- "Sabes, assim como tu, a tua mãe também gostava de observar as estrelas."
- "Então hoje vou adormecer a ver as estrelas, pode ser que a mamã seja uma daquelas estrelas no céu." - disse com uma voz sonolenta.
- "Fazes bem em dormir, foi um dia longo, princesa."
Com isto dei-lhe um beijo de boa noite, e ela esboçou um belo sorriso, ajeitou-se sobre o meu peito, e ali adormeceu enquanto observava as estrelas... mal sabia ela, que a mãe adorava adormecer assim.
Naquela noite também eu adormeci a olhar as estrelas, que não me faziam apenas relembrar o brilho daqueles olhos azuis, mas principalmente o esplendor do seu coração.

"Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão."  (Arnaldo Alvaro Padovani)
(Fim)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Regresso ao passado (II)

(...) Quase instantaneamente ela levanta-se, diz-me "Não fiques triste, papá. Gosto tanto do teu sorriso.", e dá-me um beijo no rosto.
Aquele beijo tão delicado fez-me entrar por completo num estado de nostalgia, fecho os olhos e começo a rever o passado. Dou por mim naquela mesma praia desta feita mais jovem e acompanhado por outra pessoa, rondávamos os dois a mesma idade e pelo brilho do nosso olhar parecíamos bastante felizes.
O brilho daqueles olhos azuis confundia-se com o brilho cristalino do mar, os seus cabelos teimavam em levantar e flutuar cada vez que uma brisa mais forte se fazia sentir. Gostaria de saber o que se estava a passar, pois acabaras de sorrir de uma maneira resplandecente. Sei que teimavas em dizer que esse sorriso não era bonito, mas eu gostava.
Ahh, já me lembro, tinha acabado de dizer "Amo-te". Mas como era possível ter tido um lapso de memória, principalmente quando se tratava da maneira tão bonita com que sorrias para mim, cada vez que eu exprimia por palavras o meu sentimento por ti? O mais certo era eu estar a sentir falta de viver todos aqueles momentos uma vez mais.
Sabendo que não seria possível voltar a repetir aqueles momentos, restava-me ficar com as saudades que começaram a percorrer todo o meu corpo. Restava-me ficar com as saudades do teu sorriso, as saudades do teu olhar, as saudades da tua voz, as saudades de te tocar, as saudades de que estivesses a meu lado, as saudades de me sentir protegido, as saudades de te proteger ...as saudades de ti.
Quando dou por mim estou literalmente a ser sacudido e enquanto isso uma voz doce refila comigo e diz: "Papá, estás a ouvir-me?"

"Quando se ouve certas músicas fica-se com saudade de algo que se teve e nunca mais se terá" (adaptado de Samuel Howe)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Aniversário (I)

Estava eu envolto nos meus sonhos, quando numa manhã de Sábado ouço no fundo do meu inconsciente uma voz doce e traquina a dizer "Papá acorda. Faço anos hoje.". Com muito custo abro um olho e como era habitual todas as manhãs, vejo aquele rosto sorridente a irradiar uma imensa felicidade.
Felicidade essa que enchia o meu coração e me dava forças para enfrentar todas as rotinas diárias, todos os desafios que me apareciam pela frente, coisa que nem sempre era tarefa fácil. Era ver aquela felicidade que me dava forças para não desistir de tudo, tinha em mãos um forte motivo para continuar.
Entretanto, a mesma voz volta-se a ouvir desta vez dizendo: "Papá acorda. Não sejas do'minhoco.".
Eu sabia que tinha de acordar e sair da cama, sabia que era um dia especial para aquela pequena menina, portanto respondi "O papá já está acordado, Beatriz.", enquanto isso aproximei-me dela, e dei-lhe um abraço enorme e os parabéns. Como seria de esperar, ela ficou toda feliz e começou aos pulos em cima da cama, típico da idade. E como era o seu aniversário nem me importei.
Infelizmente, na minha vida, este dia não significava apenas o aniversário da minha filha...significava também o dia em que a mãe dela morreu. Ultimamente, com uma regularidade crescente ela perguntava-me porque é que não tinha mãe, e aos poucos eu ia-lhe explicando. Revelava-se uma tarefa difícil, mas que tinha de ser feita, aquela criança merecia saber tudo sobre a grande mulher que a trouxe ao mundo.
O dia foi passando, e como tinha combinado, naquele dia era ela que escolhia os planos. Para grande surpresa minha, os pedidos daquele dia resumiram-se a passar uma manhã no parque, um almoço pouco saudável e ir passear pela praia durante a tarde. Fiquei surpreso pela escolha de tais planos, mas nem sequer os questionei, limitei-me a fazer com que o dia fosse como a pequena princesa desejou.
Durante o passeio pela praia, todas as vezes que olhava para ela recordava-me da sua mãe, aqueles olhos, aquele cabelo, até o sorriso era igual. Uma lágrima escorreu do meu olho, "Espero que ela não tenha reparado", pensei.
Mas tinha de me abstrair daquele pensamento, não queria que ela me visse triste, pelo menos hoje. Para tornar essa tarefa mais fácil decidi começar a correr atrás dela pela areia, até que nos cansámos.
Fomos sentar-nos a apreciar o mar, e enquanto isso e mais uma vez para grande surpresa minha, ela pergunta-me "Estás triste, papá?".
- "Não. Quer dizer, mais ou menos.", respondi.
- "Então? Portei-me mal?".
- "Não, nada disso. Sabes aquele assunto que temos falado? Sobre a tua mãe? É isso.", respondi eu com um sorriso, para tentar não a preocupar.
- "Mas porquê hoje? Porque te lembraste disso no meu dia de anos, papá?"
- "Sabes, eu lembro-me disso todos os dias. Mas, o dia dos teus anos faz-me lembrar ainda mais porque a tua mãe morreu quando nasceste. Perdi uma rainha, mas ganhei uma princesa."
Quase instantaneamente ela levanta-se diz-me "Não fiques triste, papá. Gosto tanto do teu sorriso.", e dá-me um beijo no rosto.