quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Aniversário (I)

Estava eu envolto nos meus sonhos, quando numa manhã de Sábado ouço no fundo do meu inconsciente uma voz doce e traquina a dizer "Papá acorda. Faço anos hoje.". Com muito custo abro um olho e como era habitual todas as manhãs, vejo aquele rosto sorridente a irradiar uma imensa felicidade.
Felicidade essa que enchia o meu coração e me dava forças para enfrentar todas as rotinas diárias, todos os desafios que me apareciam pela frente, coisa que nem sempre era tarefa fácil. Era ver aquela felicidade que me dava forças para não desistir de tudo, tinha em mãos um forte motivo para continuar.
Entretanto, a mesma voz volta-se a ouvir desta vez dizendo: "Papá acorda. Não sejas do'minhoco.".
Eu sabia que tinha de acordar e sair da cama, sabia que era um dia especial para aquela pequena menina, portanto respondi "O papá já está acordado, Beatriz.", enquanto isso aproximei-me dela, e dei-lhe um abraço enorme e os parabéns. Como seria de esperar, ela ficou toda feliz e começou aos pulos em cima da cama, típico da idade. E como era o seu aniversário nem me importei.
Infelizmente, na minha vida, este dia não significava apenas o aniversário da minha filha...significava também o dia em que a mãe dela morreu. Ultimamente, com uma regularidade crescente ela perguntava-me porque é que não tinha mãe, e aos poucos eu ia-lhe explicando. Revelava-se uma tarefa difícil, mas que tinha de ser feita, aquela criança merecia saber tudo sobre a grande mulher que a trouxe ao mundo.
O dia foi passando, e como tinha combinado, naquele dia era ela que escolhia os planos. Para grande surpresa minha, os pedidos daquele dia resumiram-se a passar uma manhã no parque, um almoço pouco saudável e ir passear pela praia durante a tarde. Fiquei surpreso pela escolha de tais planos, mas nem sequer os questionei, limitei-me a fazer com que o dia fosse como a pequena princesa desejou.
Durante o passeio pela praia, todas as vezes que olhava para ela recordava-me da sua mãe, aqueles olhos, aquele cabelo, até o sorriso era igual. Uma lágrima escorreu do meu olho, "Espero que ela não tenha reparado", pensei.
Mas tinha de me abstrair daquele pensamento, não queria que ela me visse triste, pelo menos hoje. Para tornar essa tarefa mais fácil decidi começar a correr atrás dela pela areia, até que nos cansámos.
Fomos sentar-nos a apreciar o mar, e enquanto isso e mais uma vez para grande surpresa minha, ela pergunta-me "Estás triste, papá?".
- "Não. Quer dizer, mais ou menos.", respondi.
- "Então? Portei-me mal?".
- "Não, nada disso. Sabes aquele assunto que temos falado? Sobre a tua mãe? É isso.", respondi eu com um sorriso, para tentar não a preocupar.
- "Mas porquê hoje? Porque te lembraste disso no meu dia de anos, papá?"
- "Sabes, eu lembro-me disso todos os dias. Mas, o dia dos teus anos faz-me lembrar ainda mais porque a tua mãe morreu quando nasceste. Perdi uma rainha, mas ganhei uma princesa."
Quase instantaneamente ela levanta-se diz-me "Não fiques triste, papá. Gosto tanto do teu sorriso.", e dá-me um beijo no rosto.

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