(...) Era a rapariga do almoço. Por momentos fiquei atónito, algo se passava comigo, mas em breves segundos continuei o que estava a fazer antes daquele encontrão inesperado. No entanto, e uma vez mais, voltou a não me sair do pensamento. "Outra vez aquela rapariga, aquele sorriso novamente, mas desta vez senti o seu perfume... Que cheiro irresistível. Só espero que nenhuma das duas tenha reparado em como fiquei sem jeito.", pensava eu.
Mas pensava mal, porque segundos depois a voz da pessoa que me fazia feliz, fez-se sentir.
- O que tens? Noto que não estás bem. - disse ela.
- Não se passa nada, estou um pouco cansado só isso. - respondi, com uma voz trémula.
Enquanto isso o meu interior começava a atormentar-me por lhe estar a mentir, coisa que detestava fazer.
- Porque será que não acredito nisso que me disseste? - retorquiu ela.
- Mas devias. Assim como devias aproveitar esta vista. Já reparaste que temos Paris aos nossos pés? - disse eu, escolhendo as palavras a dedo, de modo a libertar-me daquele assunto que começava a inquietar-me cada vez mais os pensamentos.
No resto do nosso passeio nocturno não se tocou mais naquele assunto, e aparentávamos ser o que de facto éramos, um casal de dois jovens apaixonados um pelo outro.
Assim que chegámos ao nosso quarto e nos deitámos, não foi preciso esperar muito para que ela adormecesse. Como sempre, parecia um anjo enquanto dormia, um anjo sem asas mas que mesmo assim era capaz de iluminar o meu caminho e de me fazer feliz.
O tempo passava e eu não conseguia dormir, portanto decidi levantar-me com a máxima prudência de modo a não destabilizar o teu sono. Voltei a vestir-me e em cima duma pequena secretária deixei um bilhete onde se podia ler "Não conseguia dormir, e fui dar uma volta. Não te preocupes.". Quando ia para sair, o silêncio que se fazia sentir, acabaria por ser interrompido com o barulho de uma pessoa a passar no corredor, pelo som dos passos poderia dizer que se tratava de uma mulher.
O som começou a diminuir até que acabaria por cessar. Assim sendo, saí do quarto e à medida que percorria os vastos corredores do hotel, tentava ao máximo abafar o som dos meus passos. Não queria incomodar ninguém.
Farto de percorrer aqueles corredores a pé, decidi esperar por um elevador. Estava a precisar de apanhar ar puro, de que a brisa da noite levasse para bem longe certos pensamentos.
Após uns longos três minutos de espera as portas do elevador abrem-se perante mim, e pela terceira vez naquele dia volto a cruzar-me com a jovem rapariga de cabelo castanho-claro. Sem me recordar que estava no coração de Paris, com uma voz meio rouca (provavelmente pelo choque causado por encontrar novamente aquela rapariga) e à medida que entro no elevador digo "Boa noite.".
Antes que pudesse remediar o meu "erro" ao ter falado em português, e até mesmo antes das portas do elevador se fecharem por completo ouço uma voz ténue dizer "Boa noite. Vejo que é a terceira vez que nos cruzamos em tão pouco tempo.".
- Sim, é verdade. - respondi eu.
Por algum motivo, que ainda desconhecia a presença daquela rapariga incomodava-me. Ainda mais agora, que descobri que parece falar fluentemente português.
- Então e para onde vai um rapaz, tão bem parecido, a estas horas da noite sem qualquer companhia? - perguntou a misteriosa rapariga.
- Apanhar ar puro. Insónias. - disse , telegraficamente.
- Importa-se que o trate por "tu"? Ou até que lhe faça companhia nesse passeio nocturno? É que estou na mesma situação. - disse a rapariga, com uma certa lábia.
- Não, claro que não. Acho que nos pode fazer bem. - respondi.
Assim sendo, ambos saímos do hotel e fomos dar um breve passeio nas margens do "Seine", rio que banha a cidade de Paris.
Tinha passado pouco mais de uma hora quando ambos regressámos ao hotel. Mas desta vez, não fomos cada um para seu lado, eu acompanhei a rapariga ao quarto dela, e ela fez questão que entrasse para tomar uma bebida antes de eu regressar ao meu quarto. Fez-me sinal para entrar primeiro e assim fiz, de seguida ela entrou e fechou a porta.
Quando o barulho da porta ao ser fechada se fez sentir, três andares acima alguém acabara de acordar e dera pela falta do seu companheiro.

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