segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Voz do Coração (VII)

(...) Quando o barulho da porta ao ser fechada se fez sentir, três andares acima alguém acabara de acordar e dera pela falta do seu companheiro.
Naquela altura, eu não fazia ideia de que nos minutos seguintes, ela iria acordar, iria até deixar o calor dos lençóis e levantar-se, onde acabaria por encontrar o bilhete que eu lhe havia deixado. Ligar-me-ia para o telemóvel algo que se viria a revelar inútil, pois eu tinha-me esquecido dele no quarto, e não o trazia comigo.
Enquanto isso, eu estava ali no quarto de outra rapariga, "era só para uma bebida", pensava eu.
   - Podes sentar-te. E também me podes dizer o queres beber. - dizia ela, enquanto arrumava a sua mala, e tirava o seu casaco ficando apenas com um vestido preto.
   - Posso beber o mesmo que tu, não sou esquisito. - respondi , enquanto expressava um leve sorriso.
Imediatamente, ela solta uma gargalhada e diz:
   - Sempre com um sentido de humor tão astuto. Acho isso impressionante.
   - Obrigado. Mas acho que aquilo que disse não foi assim tão...engraçado. - disse calmamente.
Com isto, ela trouxe as nossas bebidas e sentou-se na cadeira ao lado daquela onde eu me encontrava sentado. Estranhei, pelo simples facto de que se poderia ter sentado de frente para mim, mas não comentei.
Os minutos passaram e a certa altura fez-se silêncio, silêncio esse que eu decidi quebrar dizendo:
   - Bem, já se faz tarde. Acho quu...
   - Acho que está aqui bastante calor. - disse ela com uma voz sedutora, interrompendo a minha frase, enquanto baixava uma alça do vestido que trazia.
Naquele instante senti um calafrio, que percorreu o meu corpo de cima a baixo. Tinha mesmo de me ir embora, não podia ficar ali mais tempo.
No entanto, com tal contracção dos meus músculos esboçar algum movimento seria tarefa impossível da minha parte, mas impossível ainda quando ela colocou um braço sobre o meu pescoço, aproximou-se do meu ouvido e com uma voz sedutora sussurrou "Hoje vais ser meu.".
Eu sabia que aquilo não podia acontecer, mas continuava ali quieto. Continuava ali sem qualquer reacção física possível. Começava a sentir-me como lixo, um verdadeiro canalha.
Tinha de ser mais forte do que estava a ser, tarefa que acabaria por se tornar cada vez mais difícil à medida que o tempo passava, pois quando volto a dar por mim a ousada rapariga já se tinha levantado e o vestido tinha escorrido pelo seu corpo e encontrava-se aos seus pés.
Tentei desviar o olhar daquele corpo esbelto que se erguia perante mim, no entanto parecia existir algum tipo de magnetismo que não o permitia. O meu coração começava a acelerar cada vez mais, sentia-me a ficar corado, imaginei-me a despir as duas peças de roupa que cobriam aquele corpo, um desejo enorme de beijá-la nascia dentro de mim.  
Sendo comprometido, era a primeira vez que sentia algo assim em tais condições, mas isso não me fez descer (mais) baixo e continuei a lutar contra aquele desejo latente. Com isso, enchi os meus pulmões de coragem e apesar de ter saído com uma voz tremula disse "Não. Isto não pode acontecer. Vou embora.".
Com uma das suas mãos ela fez um sinal negativo, em como não me ia deixar ir embora e com um movimento voluptuoso sentou-se, de frente para mim, sobre a minha perna direita. Eu continuava completamente imóvel, por outro lado, ela começou a abrir a minha camisa, desabotoando botão após botão. Assim que terminaram os botões temi que ela continuasse a descer, mas não. As suas mãos voltaram para cima, desta feita a tocar no meu tronco duma maneira absurdamente fascinante, como somente uma pessoa havia feito até então. Da maneira como ela o fazia, parecia que já tinha explorado o meu corpo antes, parecia que sabia como me deixar ali...preso aquela cadeira.
Aquilo não podia continuar, eu tinha de fazer algo para parar aquela situação. Quanto mais hesitasse mais difícil seria para me libertar depois, o meu coração falava mais alto, o sentimento que nutria por outra pessoa era demasiado forte para ficar ali muito mais tempo, portanto decidi tomar uma atitude.
Coloquei as minhas mãos na sua cintura e dei a entender que me estava a deixar levar pela circunstância, senti um sorriso de satisfação nos seus lábios como quem dizia "Finalmente consegui dar-te a volta"; "Se soubesses que estou a usar esta situação para sair daqui, não sorrias dessa maneira", pensei eu.
Fiz um movimento para me levantar da cadeira, e ela correspondeu levantado-se quando a mim. Ela, tinha metido as suas mãos à volta do meu pescoço; e eu, continuava com as minhas na sua cintura. Desci as minhas mãos para as suas ancas, peguei nela e sentei-a em cima da mesa, como tinha previsto ela retirou as mãos do meu pescoço e começou a explorar novamente o meu tronco.
A situação tinha-se tornado favorável e aquela seria a melhor oportunidade para sair dali, e assim fiz. Aproveitei aquela ocasião onde nada me prendia e com um passo acelerado sai para fora do quarto enquanto apertava a camisa.
A porta do quarto, ao fechar-se, bateu com um grande estrondo que acabou por ecoar em todo aquele piso. No instante em que a porta do quarto se fechou, mal sabia eu que três andares acima, a minha companheira começava a chorar compulsivamente.

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